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Tecnologia une compostos aquosos e oleosos de forma homogênea
Pesquisadores da FEA usam leite vegetal como estabilizante e produzem bebida funcional
Por André Gobi - 17/05/2026


Imagem: Reprodução


Desmontar uma matriz vegetal, extrair tudo o que ela tem de benéfico e remontar seus compostos em uma única estrutura estável, funcional e pronta para o consumo. Esse é o princípio de uma tecnologia desenvolvida na Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Unicamp que possibilitou a produção um alimento nutracêutico, ou seja, com propriedades tanto nutricionais quanto terapêuticas, utilizando apenas três ingredientes: óleo de romã, o suco dessa fruta e leite de amêndoa, sem nenhum aditivo.

A tecnologia permite colocar substâncias que possuem afinidade com a água (denominadas hidrofílicas) e substâncias que se misturam com óleos (lipofílicas) em uma mesma estrutura líquida de forma homogênea, sem que ocorra uma separação por fases, superando assim um dos principais desafios da engenharia de alimentos funcionais. O desenvolvimento coube ao pesquisador Iuri Procópio Castro Brito, doutorando na FEA, sob coordenação do professor colaborador da faculdade Eric Keven Silva. O apoio técnico da Agência de Inovação Inova Unicamp possibilitou o depósito da patente da invenção.

O desafio técnico

Matrizes vegetais ricas em compostos bioativos frequentemente concentram substâncias benéficas nas suas frações aquosa e oleosa. A romã é utilizada por Silva como exemplo, pois é uma fruta que possui compostos fenólicos hidrossolúveis, com forte ação antioxidante e anti-inflamatória, mas cujas sementes contêm compostos lipossolúveis, associados a benefícios metabólicos. 

O problema, diz o professor, é que essas duas frações não se misturam naturalmente. “Se forem colocadas juntas, elas não formam um produto homogêneo. Sempre vão se separar em fases distintas”, ressalta Silva. A tecnologia desenvolvida na Unicamp resolveu esse desafio ao colocar, dentro de uma única estrutura líquida, as fases hidrofílica e lipofílica, formando um produto homogêneo. 

Para chegar a esse resultado, a solução utiliza o leite vegetal (tecnicamente, um extrato aquoso de um vegetal oleaginoso) como veículo estruturante. Neste caso, foi escolhido o leite de amêndoa, por já ser uma emulsão natural que contém água e gordura, permitindo assim a incorporação simultânea das fases hidrofílica e lipofílica da romã. O resultado é um sistema único e estável. 

Nutracêutico clean label

Alimentos nutracêuticos são aqueles que oferecem benefícios à saúde e também atuam na prevenção de doenças, como no controle do colesterol e triglicerídeos. O produto obtido a partir da aplicação da tecnologia desenvolvida pelos pesquisadores da FEA tem sua formulação final composta apenas por leite vegetal, óleo da semente de romã e o suco da própria fruta. Segundo o professor, o grande diferencial do processo é a ausência total de aditivos alimentícios, o que posiciona a tecnologia à frente das soluções convencionais de engenharia de produtos. “O processo da invenção não tem estabilizante, não tem emulsificante. São apenas três ingredientes brutos da própria matriz vegetal”, ressalta.

Por sua natureza, a tecnologia é alinhada ao conceito clean label (produtos alimentícios com listas de ingredientes curtas e sem aditivos artificiais), em um contexto no qual os consumidores buscam por produtos com fórmulas mais naturais.

Outro ganho proporcionado pela tecnologia é que o uso do extrato de amêndoas oferece vantagens sensoriais. Por ser naturalmente branco, ele permite uma coloração mais próxima à do suco da fruta de origem, solucionando um obstáculo tecnológico recorrente na indústria, que é a dificuldade para obter composições que se assemelhem ao fruto a que remetem. “Não faz sentido usar compostos de uma fruta em uma base que não lembra sua cor natural. Se a aparência não for adequada, o consumidor pode rejeitar o produto. O leite de amêndoa ajuda a resolver esse problema”, destaca Silva. A tecnologia também pode ser aplicada utilizando outras matrizes como fonte de leite vegetal, como castanha de caju, amendoim e aveia, entre outras.

A solução pode ser aplicada em bebidas análogas a lácteos, produtos com textura semelhante a iogurtes e sobremesas cremosas, como pudins e sorvetes de origem vegetal. Embora o foco inicial esteja na indústria alimentícia, os compostos bioativos também apresentam potencial para cosméticos. “Como os compostos bioativos utilizados também têm ação conhecida na pele, a tecnologia pode, futuramente, ser aprimorada e explorada em aplicações cosméticas”, explica o professor. Portanto, também representa uma oportunidade estratégica para empresas interessadas em expandir o portfólio de produtos de origem vegetal e desenvolver nutracêuticos clean label.

A pesquisa começou em 2023, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Já o depósito da patente foi realizado em 2025 com estratégia da Inova Unicamp. Silva destaca o papel da agência no processo de estruturação da propriedade intelectual. “A Inova foi uma escola. A cada interação aprendemos mais sobre propriedade intelectual. Com o apoio da Agência de Inovação da Unicamp, já conseguimos desenvolver a pesquisa cumprindo os requisitos para o depósito da patente”, diz. A tecnologia está disponível para licenciamento, e os cientistas estão trabalhando em novas pesquisas para ampliar ainda mais o potencial funcional e inovador da formulação.

 

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